quinta-feira, abril 14, 2011

Soneto do amor total /Vinícius de Moraes


Amo-te tanto meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.


Amo-te enfim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.


Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.


E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

quinta-feira, março 10, 2011

EMBRIAGA-TE

Deve- se estar sempre bêbado.

É a única questão.

Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo, que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra. É preciso te embriagares

sem trégua.

Mas de quê?

De vinho, de poesia ou de virtude?

A teu gosto mas embriaga-te.

E se alguma vez sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de uma vala, na sombria solidão de teu quarto, tu te encontras com a embriaguez já minorada ou finda, peça ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que voa, a tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme. Pergunte que horas são.

E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, te responderão.

É hora de se embriagar !!!

Para não ser como os escravos martirizados do tempo, embriaga-te. Embriaga-te sem cessar.

De vinho, de poesia ou de virtude. A teu gosto...

Charles Baudelaire
Quando sem você tudo é nada...

Caio Fernando
“Para se odiar alguém, é preciso que esse alguém nos magoe, nos faça mal. (...) É mais fácil morrer de nada do que de dor, contra a dor podemos revoltar-nos, contra o nada, não.”


Susanna Tamaro

O Bêbado e A Equilibrista - Elis Regina



Caía a tarde feito um viaduto

E um bêbado trajando luto

Me lembrou Carlitos...

A lua

Tal qual a dona do bordel

Pedia a cada estrela fria

Um brilho de aluguel

E nuvens!

Lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas

Que sufoco!

Louco...

terça-feira, março 08, 2011


O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)
Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz. 

Fernando Pessoa.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.


A tua beleza aumenta quando estamos sós


E tão fundo intimamente a tua voz


Segue o mais secreto bailar do meu sonho.


Que momentos há em que eu suponho


Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Sem poupar coração



Não quero mais
Ouvir quem diz
Que o amor é só
Pra ser feliz
Angústia ou paz
Prazer ou dor
Eu quero é mais
Morrer de amor

Eu quero amar demais
Sem poupar coração
Que pra mim o amor que apraz
É uma louca paixão
Um amor só satisfaz
Além da razão.


Nana Caymmi

Composição: Dory Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro