sábado, setembro 18, 2010




"Muitas pessoas estão incrustadas com uma série de hábitos, costumes, fazendo sobre eles mesmos julgamentos que as deixam infelizes. Sofrem porque querem e não buscam mudar.

Estas pessoas estão como mortas, no sentido que não podem quebrar as amarras de suas preocupações, aborrecimentos, costumes arraigados e permanecem frequentemente vítimas dos juízos que temos sobre eles. A partir daí, é bem evidente que sejam, por exemplo, covardes, indolentes ou maldosos.

Se começarem a ser indolentes ou covardes, nada vai mudar o fato de serem assim. É por isso que estão mortos; é uma maneira de dizer que um morto-vivo está cercado, completamente envolvido pela inquietação perpétua dos julgamentos e das ações que não querem mudar.

De sorte que, em verdade, como estamos vivos, quis demonstrar [...] a importância de modificar os atos por outros atos.

Qualquer que seja o círculo do inferno em que vivemos, penso que somos livres para quebrá-lo. E se as pessoas não o quebram, ainda assim permanecem livres e se colocam livremente no inferno."

(Jean-Paul Sartre)

Amo o teu túmido candor de astro



Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

in «O Teu Rosto», 1994
António Ramos Rosa

sexta-feira, setembro 17, 2010



Em tuas veias de rosa
de cândida maturidade
quero derramar o meu encanto
quero fluir no meu outono
Na tua nudez de piscina
dourada e marinha
com minúsculas sombras de melancolia
beberei a tua noite azul
e repousarei a salgada dolência
na firmeza macia dos teus róseos músculos
já não serei o fumo de uma sombra
mas um sopro de estrelas
desfalecendo no moroso júbilo
da minha sombra inteiramente aberta
cheia da nítida substância de um páramo terrestre
em dois vasos num só vaso de lucidez ardente




in «Meditações Metapoéticas», António Ramos Rosa
e Robert Bréchon, Ed. Caminho, 2003

quinta-feira, setembro 16, 2010

Travessuras / Oswaldo Montenegro

Eu insisto em cantar
Diferente do que ouvi
Seja como for recomeçar
Nada há, mais há de vir
Me disseram que sonhar
Era ingênuo, e daí?
Nossa geração não quer sonhar
Pois que sonhe a que há de vir
Eu preciso é te provar
Que ainda sou o mesmo menino
Que não dorme a planejar travessuras
E fez do som da tua risada um hino

segunda-feira, setembro 13, 2010


envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
amassar com os dentes uma morte íntima
durante a sonolência balbuciente das papoulas prolongar
a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer

colher em teu sexo o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos... as bocas
do gado triturando o restolho... as correrias inesperadas
das aves rasteiras

e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca
subirei com a fala ao cimo de teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiácio amor das estações quentes
Al Berto
foto da net

sábado, setembro 11, 2010

Cupido



Cupido
Claudio Lins

Eu vi quando você me viu, seus olhos pousaram nos meus num
arrepio sutil
Eu vi, pois é, eu reparei, você me tirou pra dançar sem nunca
sair do lugar
Sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se
perdeu
Eu vi quando você me viu, seus olhos buscaram nos meus o mesmo
pecado febril
Eu vi, pois é, eu reparei, você me tirou todo o ar pra que eu
pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu, foi só você e eu
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se
perdeu
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se
perdeu
Ficou só você e eu
(Quando você me viu)

sexta-feira, setembro 10, 2010


...“Faz amor comigo” e deixa-me correr à tua volta, deitar-me no teu colo profundo feito com as tuas lágrimas e lembranças de outros dias. “Faz amor comigo” e desperta os meus sentidos escondidos na minha alma assustada pelo brilho desta lua que é mais tua do que minha. “Faz amor comigo” e dá-me de volta a essência do que sou, perdida numa tarde de amor debaixo das luzes verdes e transparentes de uma floresta de beira de estrada, suja e perfeita de tanto pó....

Estela Ribeiro

quinta-feira, setembro 09, 2010

Feminina




Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.

Não lavei as mãos pois tinham os sons
do teu corpo.

Não lavei o corpo pois tinha os rastros
dos teus gestos; tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação do teu olhar
que não lavei.

Nem aqueles lençóis, não os lavei,
nem os espelhos, que continuam
onde sempre estiveram: porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão, no paraíso,
parece que era.

Lavei, sim, lavei e perfumei
a alma, em jasmim, que é tua, só tua,
para te esperar como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar: donde apaguei
todas as ausências que apaguei
ao teu olhar.


Soares Feitosa