sexta-feira, julho 03, 2009

Aposto o apóstata da gramática

Longe de ter alguma relação direta com os conceitos de adjetivo ou advérbio, o aposto prefere se afastar dos outros elementos que compõem a classe dos termos acessórios da oração para se atar aos substantivos.


por Maurício Silva

Como várias categorias linguísticas que a gramática procura padronizar por meio de normas e regras, o aposto é um componente estrutural da oração bastante controverso, a ponto mesmo de podermos considerá-lo, sem rodeios, uma espécie de apóstata em relação às suas origens: é que, curiosamente, o aposto - conceito gramatical já presente nos gramáticos clássicos (como em Quintiliano) - provém do grego epítheton, que deu origem, em português, à palavra epíteto, isto é, elemento que qualifica, que adjetiva. Ora, embora qualifique o termo a que se refere, a condição básica do aposto é justamente ser um elemento gramatical de valor substantivo que explica, resume ou desenvolve outro substantivo.

Longe de ter alguma relação direta com os conceitos de adjetivo ou advérbio, o aposto prefere se afastar dos outros elementos que compõem a classe dos termos acessórios da oração (adjunto adnominal e adjunto adverbial) para se atar, num quase autoisolamento sintático, aos substantivos, adquirindo ele mesmo, como dissemos há pouco, um valor substantival.

Contudo, não se pode negar que - da mesma maneira que o adjunto adnominal e o adjunto adverbial, dos quais é uma espécie e coirmão - o aposto anexa ao substantivo a que se liga um ou mais dados secundários, não sendo, portanto, como quer Celso Pedro Luft em sua Gramática Resumida, "rigorosamente necessário à compreensão do enunciado".

Para o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o sentido de aposto sugere, em primeiro lugar, a ideia de algo atrelado, que se acrescenta a alguém ou a alguma coisa. De fato, adaptando esse sentido primário para os termos da gramática, o aposto é definido como um termo de valor substantivo que explica, resume ou desenvolve outro substantivo, como ocorre nos exemplos que seguem, em que os apostos aparecem em destaque: "amanhã, sábado, será um dia muito especial"; "para conseguirmos é necessário isto: coragem"; "as frutas, as verduras, a carne, tudo estragou"; "aquele rapaz, aluno exemplar, tirou a melhor nota da sala". Já pela variedade de espécies por meio das quais o aposto se manifesta, percebese, como afirmamos antes, tratar-se de um termo controverso.

Talvez seja exatamente por isso que alguns gramáticos - procurando "dar nomes aos bois", como se diz popularmente - preferem subdividir os apostos em tipos distintos, conferindo-lhes nomes que procuram, de alguma maneira, esclarecer o sentido que adquirem no contexto oracional. Dessa forma, teríamos, então, o aposto explicativo ("José, homem leal, estava bem disposto"), o aposto enumerativo ("Há duas coisas importantes: o amor e a amizade"), o aposto de oração ("João chegou atrasado ontem, coisa que não pode se repetir"), o aposto de especificação ("Esta é a cidade de São Paulo, onde fica o Parque Villa Lobos") etc. Alguns autores a consideram este último caso um adjunto adnominal, pela carência de pausa, a qual reputam condição imprescindível para a existência do aposto.

A questão da pausa (ou das vírgulas), contudo, pode se constituir num fenômeno enganoso, pois poderia levar o incauto leitor a confundir o aposto com o predicativo. Mas, novamente, é o caráter apostático (de apóstata!) que o salva desse constrangimento, pois, tendo se afastado de sua condição adjetival primitiva, o aposto, como dissemos reiteradas vezes, só pode ter um valor substantivo. Com efeito, há que se diferenciar aposto e predicativo (vide box), lembrando que enquanto o primeiro tem valor substantivo ("Pedro, bom aluno, não veio hoje"), o segundo tem valor atributivo ("Pedro, preocupado e ansioso, chegou atrasado hoje).

Pois é! Diante de tantos detalhes, aposto que tem muita gente pensando que o aposto existe mesmo, muitas vezes, para nos confundir.

Aposto x Predicativo

Na "Nova Gramática do Português Contemporâneo", Celso Cunha e Lindley Cintra discorrem sobre o "aposto predicativo". Explicam os gramáticos: "Com o aposto atribui-se a um substantivo a propriedade representada por outro substantivo. Os dois termos designam sempre o mesmo ser, o mesmo objeto, o mesmo fato ou a mesma idéia. Por isso, o aposto não deve ser confundido com o adjetivo que, em função de predicativo, costuma vir separado do substantivo que modifica por uma pausa sensível (indicada geralmente por vírgula na escrita). Numa oração como a seguinte:

E a noite vai descendo muda e calma. (F. Espanca, S, 60)

que também poderia ser enunciada

E a noite, muda e calma, vai descendo.
ou
E, muda e calma, a noite vai descendo.

muda e calma é predicativo de um predicado verbo-nominal.

O mesmo raciocínio aplica-se à análise de orações elípticas, cujo corpo se reduz a um adjetivo, que nelas desempenha a função de predicativo.

É o caso de frases do tipo:
Rico, desdenhava dos humildes.

em que rico não é aposto. Equivale a uma
oração adverbial de causa [= porque era rico],
dentro da qual exerce a função de predicativo."

Alguns autores É o caso de Celso Pedro Luft, em sua já citada gramática, mas também do linguista Mattoso Câmara, para quem, em seu Dicionário de Linguística e Gramática, o aposto "se separa do elemento a que se opõe por uma pausa inconclusa, que na escrita se indica por vírgula".

Fonte: Revista Língua Portuguesa


quinta-feira, julho 02, 2009

Bilinguismo infantil: bom ou ruim?

Estudo avalia consequências do aprendizado de mais de uma língua durante a infância.

Por Barbara Marcolini

Quais os efeitos do aprendizado precoce de uma língua estrangeira? Para responder a essa pergunta, uma psicóloga paulista investigou a fundo estudos que apontam vantagens ou desvantagens do bilinguismo em crianças de até quatro anos. Ela concluiu que os possíveis benefícios do ensino de uma segunda língua dependem em grande parte do ambiente em que a criança vive.
Embora a língua oficial do Brasil seja o português, é crescente o número de crianças que aprendem outro idioma ainda nos primeiros anos de vida. A importância do inglês no mundo globalizado, a manutenção de línguas indígenas em escolas dentro de reservas e a existência de projetos bilíngues em escolas que ficam nas fronteiras com outros países sul-americanos são alguns motivos para o fenômeno.

A psicóloga Elizabete Flory analisou inúmeros trabalhos brasileiros e estrangeiros sobre o desenvolvimento de crianças que aprenderam duas línguas ao mesmo tempo, ou que pelo menos começaram o aprendizado do segundo idioma antes de dominarem o primeiro. O estudo foi feito durante o doutorado da pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP).

Flory verificou que, até meados dos anos 1960, o bilinguismo era mal-visto pela maioria dos estudiosos. Testes feitos nos Estados Unidos compararam crianças bilíngues e monolíngues e apontaram uma possível confusão de identidade e quociente de inteligência (QI) mais baixo naquelas que falavam mais de uma língua.

A psicóloga relacionou essas conclusões a algumas falhas nos testes, que não consideravam a situação cultural ou econômica das crianças analisadas. “Esses testes foram feitos com filhos de imigrantes, que viviam em um ambiente onde sua língua e cultura eram desvalorizadas”, analisa.

Foi a partir de um estudo realizado por pesquisadores canadenses no início da década de 1960 que o bilinguismo começou a ser considerado benéfico. A comparação foi feita entre crianças que partilhavam as mesmas condições socioeconômicas e não sofriam discriminação cultural, no caso das bilíngues.

O resultado chegou a surpreender os pesquisadores: as crianças bilíngues se saíram melhor em 15 dos 18 testes de QI aplicados. Mas Flory também questiona o estudo, argumentando que a psicologia atual não considera que o QI determine a inteligência de uma pessoa. “A inteligência é um conceito relativo, que pode se desdobrar em habilidades distintas”, completa.

Vantagens cognitivas
A psicóloga repudia a atribuição de vantagens ou desvantagens absolutas ao bilinguismo precoce. “Dizer que o bilinguismo aumenta a inteligência é tão errado quanto dizer que diminui”, pondera. Ela explica que as crianças bilíngues podem desenvolver algumas capacidades mais cedo que crianças monolíngues, mas isso não significa um aumento da sua inteligência.

Por falarem mais de uma língua, crianças bilíngues desenvolvem mais rápido o que a psicologia chama de “controle inibitório”, pois, enquanto falam uma língua, elas naturalmente inibem a outra. “Isso nos auxilia quando temos muitos estímulos e precisamos nos focar em apenas um deles”, acrescenta Flory.

Além disso, o bilinguismo estimula a flexibilidade do pensamento. Quando uma criança aprende a falar dois idiomas ao mesmo tempo, ela compreende que os objetos podem ter mais de um nome. “Isso freia o que chamamos de respostas automáticas, pois há flexibilidade para se pensar em novas soluções, dar respostas mais criativas”, afirma a psicóloga.

Flory ressalta que o desenvolvimento infantil é muito influenciado pelo contexto em que a segunda língua é aprendida. “Nem sempre todas essas características são observadas no mesmo indivíduo”, diz. “Deve-se levar em conta o ambiente em que essa criança vive e o valor que é atribuído à sua segunda língua.”

A pesquisadora sugere algumas ações que podem auxiliar no acompanhamento de crianças que vivem em ambientes bilíngues. Pais e educadores devem adequar o ensino à capacidade cognitiva da criança – promovendo brincadeiras que envolvam as palavras, por exemplo – e estimular a valorização da segunda língua ao mostrar o porquê do seu uso.

Fonte: Revista Ciência Hoje

quarta-feira, julho 01, 2009

Schopenhauer


A vontade é o elemento fundamental a fim de trazer o sentido das coisas e do mundo. É essa união entre o corpo e o sentimento, segundo o filósofo, que proporciona a essência metafísica elementar: a vontade da vida.

por Vilmar Debona*

Podemos dizer que o filósofo Arthur Schopenhauer, nascido em Dantzig (em 1788) e falecido em Frankfurt (em 1860), marcou a História da Filosofia no Ocidente, principalmente por ter valorizado um elemento novo nas discussões filosóficas: a noção de corpo. Nos tempos em que Schopenhauer viveu, as filosofias de Hegel e de Schelling predominavam e se apoiavam somente no aspecto racional do homem. Para Schopenhauer, em vez de a razão definir o homem e "decifrar o enigma do mundo", são o corpo e o sentimento, o que ele chama de vontade, que permitem alcançar e dizer o sentido das coisas. A vontade é o que há de mais essencial no mundo; ela se manifesta em toda a natureza e nos corpos animais, independentemente de serem eles possuidores ou não da faculdade de razão. Todos os corpos do mundo fenomênico são considerados, nessa filosofia, como concretização de um mesmo querer que nunca cessa. A objetivação da vontade não escolhe se vai se manifestar no homem mais inteligente ou numa pedra. Desse modo, em se tratando de espécies, a diferença entre os seres humanos e os demais animais é quase insignificante, visto que tanto o homem quanto o animal têm por base uma mesma essência metafísica, a vontade de vida.

Além disso, o que faz com que a atenção dada por Schopenhauer ao corpo seja vista como determinante é o papel indispensável que este elemento tem na teoria do conhecimento do pensador. Ele acredita que a base da formação do nosso conhecimento racional não é racional, já que começa com as sensações corporais. O que o filósofo chama de representações empíricas só existem porque, anteriormente, o corpo informou dados dos objetos e sensações abafadas ao entendimento que organiza as representações. Nesse contexto, é importante levar em conta que o entendimento também faz parte do corpo do sujeito, já que é entendido como um órgão físico ou o próprio cérebro. Assim, em vez da racionalidade, como se fosse uma rainha do mundo, definir sozinha o conhecimento, ela se torna dependente dos dados corporais; só a partir desses dados a razão pode fazer algo.

Resumidamente, segundo Schopenhauer, ocorre o seguinte: por meio das afecções do corpo, o indivíduo enraíza-se no mundo e passa a intuí-lo pelo entendimento, gerando, assim, o conhecimento. Com efeito, se o indivíduo é sujeito do conhecimento, ele é também corpo. Assim, inserida no campo da discussão da cognoscibilidade humana, a noção de corpo concebida pelo pensador apresenta-se como determinante. Não mais se corre o risco da admissão de uma "cabeça de anjo alada" designando a mente do homem totalmente alheia a seu corpo, algo possível quando se considera apenas o domínio da abstração sem uma base corpórea.

Nesse sentido, se a fim de sustentar a sua teoria do conhecimento, Descartes tomou o cogito como determinante, estabelecendo a dualidade corpo/alma e o primado da res pensante sobre a res extensa; Schopenhauer, em vez de delimitar corpo e alma, une corpo e intelecto. Tanto o corpo quanto o intelecto são expressões de um mesmo em-si, que, acima de tudo, expressam algo que o pensamento e os conceitos não alcançam, a própria vontade.

O ponto de partida do conhecimento
A questão pode ser mais bem detalhada quando consideramos que o corpo é tomado pelo filósofo sob duas perspectivas. Uma que o considera como objeto imediato e outra que o vê como objeto mediato. Nesse sentido, "o entendimento nunca seria usado, caso não houvesse algo a mais, de onde ele partisse. E este algo consiste tão-somente nas sensações dos sentidos, a consciência imediata das mudanças do corpo, em virtude da qual este é objeto imediato."

Além disso, Schopenhauer salienta a que o corpo é a representação que constitui para o sujeito o ponto de partida para o conhecimento. O corpo é, pois, objeto imediato na medida em que é um mero conjunto de sensações dos sentidos que advêm da ação dos outros corpos sobre si. Nesse primeiro aspecto, o corpo designa propriamente a vontade porque cada ato de vontade corresponde a um movimento corporal; e, então, ele passa a ser - além de condição de possibilidade do conhecer - a chave para se descobrir ou se decifrar o "enigma do mundo". Contudo, esse mesmo corpo pode fornecer dados dele mesmo, na medida, por exemplo, em que os olhos veem suas partes e as mãos o podem tocar. Assim é que o corpo passa a ser, tal como os outros, objeto mediato, portanto, conhecido como representação na intuição do entendimento. Para que esse conhecimento ocorra é necessária, através do uso da lei da causalidade, a ação de uma de suas partes sobre as outras.

O autor faz uma ressalva quando toma o corpo como objeto imediato. O corpo não se dá propriamente como objeto por um motivo claro: é que Schopenhauer não o considera de um ponto de vista unilateral, ou seja, tão somente do ponto de vista do mundo como representação, o que justificava designá-lo como objeto, mas, além disso, passa a considerá-lo também a partir do mundo como vontade. De fato, principalmente a partir do Livro II de O Mundo como Vontade e como Representação, ações do corpo e atos da vontade passam a se identificar e, em razão disso, o corpo é também visto como Objeto da Vontade (Objektität des Willens). Assim é que o objeto imediato passa a ser visto por si mesmo e, mais ainda, esse outro modo de conhecimento passa a se distinguir do que é comum à representação. Com isso, a certa altura já não se tem mais tão-somente "sensações dos sentidos", ou seja, um mero meio para algo outro, mas a realidade externa. Esse mesmo meio passa a se definir como objeto e a sua figura corporal começa a ser desenhada, estando ela dotada de especificidades.

Edifício das construções racionais

Assim, o corpo, além de revelar a Vontade e ser objeto imediato, torna-se mais um objeto passível de conhecimento. É então que seus próprios membros podem se conhecer; uma mão vista ou um olho tocado e, ambos, situados espacialmente, tornam-se objetos mediatos, muito embora sejam eles também, na medida em que a mão ajuda na construção de outros objetos e o olho vê, objetos imediatos. Vê-se, pois, o motivo pelo qual, caso não houvesse a atuação do entendimento - um membro corporal determinante para a construção do conhecimento - não haveria também um mundo externo. Uma sensação por si mesma seria uma "coisa pobre", mera afecção dos sentidos. Enquanto tal, essas sensações não poderiam conter nada de objetivo, portanto, nada que se assemelhasse a uma intuição.

Desse modo, a realidade exterior a cada sujeito do conhecimento é um produto do entendimento, esse artesão que se serve das formas do princípio de razão e dos dados possibilitados pelo corpo e, com isso, oferece as representações intuitivas que se entrelaçam, formando a exterioridade. Por isso, o mundo efetivo não é um dependente da razão. Ao contrário, em vez de a razão oferecer algo, é o entendimento que, com as suas intuições empíricas possibilitadas pelo corpo, apresentase como a base do edifício das construções racionais e do conhecimento humano.

Ora, se a tarefa por excelência da filosofia é acercar-se de conceitos e com eles dar sentido ao mundo, Schopenhauer acolhe e destaca o que em essência é o avesso da abstração conceitual. Com isso, o perigo iminente da dispersão abstracionista diminui, já que os conceitos têm uma referência in concreto na realidade exterior; o pensamento provém do não pensado e, portanto, não toma este último como algo que não mereça atenção. Eis, pois, um elogio significativo ao corpo no interior da filosofia e - por que não - uma filosofia fincada no corpo.

*Vilmar Debona é Mestre e Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e Professor Analista de Conteúdos do Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino (IESDE).

Fonte: Revista Filosofia

domingo, junho 28, 2009

Flaubert e as ideias prontas

Diante da avalanche de clichês que inundavam a literatura de seu tempo, o escritor francês Gustav e Flaubert resolveu organizar um Dictionaire des idées reçues, mas moreu sem completá-lo. A obra foi publicada postumamente com os poucos verbetes escritos . Em 1952, Fernando Sabino traduziu para o portugu ês o glosário, sob o título "Lugares-Comuns", e anexou-lhe o "Esboço de um Dicionário Brasileiro de Lugares-Comuns e Idéias Convencionais".

Flaubert já dá início à obra lembrando que "somos feitos de cita ções" e cada verbete tem um tom irônico e satírico . Alguns exemplos:

Alcorão - Livro de Maomé que só se ocupa de mulheres.
Alemães - Povo de sonhadores (velhos).
Apartamento de rapaz - Sempre em desordem. Com bugigangas de mulheres espalhadas por
toda parte. Cheiro de cigarro. Encontram-se aí coisas extraordinárias.
Banqueiros - Todos ricos, árabes, lobos carniceiros.
Bolsa - Termômetro da opinião pública.
Canhotos - São terríveis na esgrima. Mais ágeis do que aqueles que se servem da mão direita.
Celebridades - Preocupar-se com o mínimo detalhe de suas vidas privadas, para poder difamá-las.
Crítico - Sempre eminente. Deve fingir tudo conhecer, tudo saber, haver lido tudo, visto tudo.
Quando o crítico nos desagrada, devemos chamá-lo de Aristarco (ou eunuco).
Dinheiro - Causa de todo mal. Dizer: Auri sacra fames.
Deputado - Ser deputado é o cúmulo da glória. Esbravejar contra a Câmara dos Deputados.
Há palradores demais na Câmara. Não fazem nada.
Diploma - Distintivo da ciência. Não prova nada.
Doutrinadores - Desprezá-los. Por quê? Não se sabe.
Economia Política - Ciência sem entranhas.
Elefantes - Distinguem-se pela memória e adoram o sol.
Enciclopédia - Ironizá-la como obra de rococó, ou mesmo combatê-la.
Escroques - São sempre da alta sociedade.
Estoicismo - É impossível.
Fábrica - Vizinhança perigosa.
Geração espontânea - Ideias de socialista.
Hugo (Victor) - Errou muitíssimo em meter-se na política.
Homero - Nunca existiu. Célebre pela sua maneira de rir: um riso homérico.
Imbecis - Aqueles que não pensam como nós.
Inventores - Morrem todos no hospital. Há sempre alguém que se aproveita de suas
descobertas, o que não é justo.
Lavradores - Que seria de nós sem eles?
Literatura - Ocupação dos ociosos.
Livro - Qualquer que seja, é sempre demasiadamente longo.
Louras - Mais quentes do que as morenas (vide Morenas).
Morenas - São mais quentes que as loiras (vide Loiras).
Negras - Mais quentes que as brancas. (vide Morenas e Loiras).
Operário - Sempre honesto, quando não provoca motins.
Ordem Pública (A) - Quantos crimes se cometem em teu nome!
Orquestra - Imagem da sociedade; cada qual executa a sua parte, e há um chefe.
Original - Rir-se de tudo que é original; odiá-lo, injuriá-lo, exterminá-lo, se possível.
Ostras - Não se pode mais comê-las! Estão caríssimas!
Otimista - Equivalente a imbecil.
Ovo - Ponto de partida para uma dissertação filosófica sobre a gênese dos seres.
Ruivas - (vide Loiras, Morenas, Brancas e Negras).

Fonte: Revista da Língua Portuguesa.


Clichês a palavra como objeto


Exemplo de banalidade ou maneira de assegurar a legibilidade de um enunciado? A relação dual entre as expressões prontas e a língua não esconde o fascínio que clichês exercem, seja na linguagem falada, na escrita ou na literatura.

por Tatiana Napoli

Um caso de amor e ódio. A maioria dos estudiosos evita os clichês como o diabo foge da cruz, mas as frases feitas dão o tom do uso da língua. Apesar de serem verdadeiras pedras no sapato dos linguistas, chavões são uma faca de dois gumes para quem trabalha com linguagem.

O parágrafo anterior, repleto de clichês, exemplifica a dualidade mantida pelos chavões na linguagem: são exemplos de banalidade e barreiras para a originalidade, ao mesmo tempo em que representam uma maneira fácil de entendimento e de assegurar a legibilidade dos enunciados.

Clichês são expressões tão utilizadas e repetidas que se desgastaram e afastaram-se de seu significado original. Essa espécie de "preguiça linguística", que poupa esforços, inibe a reflexão e multiplica a passividade entre interlocutor e receptor, permeia todos os níveis da linguagem. Da conversa de elevador aos discursos políticos, passando, obviamente, pela mídia - como explicar, afinal, o uso de expressões feitas que acabam virando modismos nos meios de comunicação, como "agenda política", "exercer a cidadania" e "herança maldita"? Ao usar clichês como muletas do discurso, o texto certamente flui com facilidade - mas a linguagem empobrece.

Os clichês estão marcados na história da linguagem como parte técnica da retórica.

Em defesa do clichê

A concepção de que "clichê bom é clichê morto" não é compartilhada, no entanto, por todos os estudiosos modernos. Christopher Ricks, conhecido crítico literário e professor universitário britânico, considera que clichês podem ser estimulantes e pondera: "Os clichês convidam-nos a não pensar - mas podemos sempre declinar o convite, e o que mais pode convidar um indivíduo pensante a pensar do que este convite?" Ele sustenta que nenhum escritor pode se permitir desdenhar dos clichês: "os clichês estão em todos os lugares na linguagem do dia-a-dia, e você simplesmente não vai conseguir se isolar deles." Ricks propõe que, em vez de banir os clichês ou evitá-los por serem malignos, o interessante seria usá-los de forma imaginativa para criar possibilidades benéficas para e com eles.

O francês Michael Riffaterre é outro defensor das frases prét-à-porter. No ensaio "Função do Clichê na Prosa Literária", ele destaca que "o clichê apresenta o paradoxo de ser um agente de expressividade devido justamente às características que a crítica considera como defeito" e observa que o clichê pode ser batido sem deixar de ser eficaz. "Não se deve confundir banalidade com desgaste. Se fosse desgastado, o clichê perderia tanto a sua clientela como os seus inimigos, o que não é o caso. Ele não passa despercebido, pelo contrário, chama sempre a atenção sobre si."

Mas nem o mais ferrenho detrator do clichê pode discordar que sem o lugar-comum não há como operar os níveis da fala. Repudiar por completo os chavões seria ansiar por uma linguagem totalmente original, que, mesmo que pudesse existir, impediria a comunicação. Talvez seja o caso, como Claudio Tognolli propõe na entrevista a seguir, de apenas criarmos novos.

O clichê metafórico e o clichê fraseológico

Em seu "Comunicação em Prosa Moderna", da editora FGV, Othon M. Garcia distingue os tipos de clichês:

Não se deve confundir o clichê metafórico (metáfora surrada do tipo "O Sol é o astro-rei" ou "a Lua é a rainha da noite") e o fraseológico (do tipo "virtuoso prelado") com a frase-feita (locuções, ditados, rifões) de genuíno sabor popular e tradicional, do tipo "alhos e bugalhos", "onde a porca torce o rabo", "coisas do arco-da-velha", "falar com os seus botões", "camisa de onze varas", "cavalo de batalha", "cobras e lagartos", "fôlego de sete gatos" e muitas outras expressões populares de origem desconhecida ou hermética, em que se refletem a alma, a filosofia e os costumes populares.

Fonte: Revista Língua Portuguesa

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sexta-feira, junho 26, 2009

Escassez de alimentos e ameaças à civilização


O maior risco à estabilidade global é o potencial da crise alimentar de provocar a derrocada de governos em países pobres. Essa crise está sendo gerada pelo constante agravamento da degradação ambiental
por Lester R. Brown

Uma das tarefas mais difíceis de fazer é antecipar mudanças repentinas. Geralmente projetamos o futuro extrapolando tendências do passado. Na maioria das vezes, esse enfoque funciona. Mas, às vezes, falha espetacularmente e as pessoas são simplesmente surpreendidas por eventos como a atual crise econômica.

Para muitos de nós, a idéia de que a civilização pode desintegrar-se provavelmente parece absurda. Quem não acharia difícil pensar seriamente sobre abandonar completamente aquilo que esperamos da vida comum? Que evidência poderia nos fazer prestar atenção a um alerta tão terrível – e como nos comportaríamos para responder a ele? Estamos tão habituados a uma longa lista de catástrofes improváveis que acabamos virtualmente programados a rejeitá-las num piscar de olhos: claro, nossa civilização pode ser dissolvida num caos – e a Terra também pode colidir com um asteróide!

Durante muitos anos, tenho estudado tendências agrícolas, populacionais, ambientais, econômicas e suas interações. Os efeitos combinados dessas tendências e as tensões políticas que elas geram apontam para o colapso de governos e sociedades. Eu mesmo vinha resistindo à idéia de que a escassez de alimentos poderia levar à derrocada não apenas de governos, isoladamente, mas também de nossa civilização global.

Não tenho mais como ignorar esse risco. Nosso reiterado fracasso em lidar com os declínios ambientais que minam a economia alimentar mundial – e, mais importante, reduzem os níveis dos lençóis freáticos, erodindo solos e elevando temperaturas – me obriga a concluir que esse colapso é possível.

Fonte:Scientific American Brasil
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terça-feira, junho 23, 2009

Culpa, ressentimento e a inversão dos valores em Nietzsche


Para ser feliz, o homem precisa afirmar sua potência de vida. Quando essa é reprimida, ele leva uma existência submissa, apenas reativa. Sentimentos como culpa e ressentimento decorrem de valores estabelecidos pelo homem reativo Por Amauri Ferreira

Qual é a origem do pecado, da culpa, e do ressentimento? São sentimentos que se tornaram tão comuns que podem nos levar a acreditar que eles são inerentes ao homem. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), em sua genealogia, nos diz que esses sentimentos são inseparáveis da moral judaico- cristã. É por essa moral que o homem experimenta continuamente uma repressão de seus impulsos ativos. Mas como esses impulsos não somem, é inevitável que haja um conflito entre uma moral que reprime e a nossa vontade de potência, que quer expandir-se. Assim, segundo o filósofo, o homem torna-se reativo quando vive limitado apenas à conservação da sua existência, o que faz multiplicar o seu sofrimento e a necessidade de viver cada vez mais submetido às promessas de recompensa oferecidas pelo poder sacerdotal. Dessa forma, o homem passa a ignorar um aspecto primordial da existência que é a criação, ou seja, é somente por meio da efetuação da sua natureza que o homem torna-se capaz de criar novos valores, de afastar para longe de si a culpa e o ressentimento.

Nesse sentido, Nietzsche nos diz que a felicidade corresponde ao crescimento da nossa potência, a uma constante diferenciação de si mesmo, o que torna desnecessária toda crença em um ideal ascético, isto é, em um modelo de perfeição que esmaga as diferenças.

Vontade de potência

Para Nietzsche, a natureza é constituída por uma multiplicidade de forças (ou impulsos) que estão permanentemente em conflito: forças que, ao assimilarem outras forças, crescem e expandem a sua potência; forças que, ao serem exploradas, reagem e tentam resistir à dominação. Nesse sentido, toda força é vontade de potência (ou vontade de poder), isto é, um impulso constante ao crescimento intensivo: "A vontade de poder só pode externar-se em resistências; ela procura, portanto, por aquilo que lhe resiste. [...] A apropriação e a incorporação são, antes de tudo, um querer-dominar, um formar, configurar e transfigurar, até que finalmente o dominado tenha passado inteiramente para o poder do agressor e o tenha aumentado" (A vontade de poder, 656). Portanto, as relações entre as forças envolvem necessariamente um desequilíbrio ou uma desigualdade entre elas, por isso sempre vão existir forças que são dominantes e outras que são dominadas. É evidente que se trata de uma hierarquia estabelecida pela potência das forças conflitantes e não uma hierarquia determinada pela representação da potência, que seria assegurada por intermédio de uma lei: "Acautelo-me de falar em 'leis'químicas: isso tem um sabor moral. Trata-se antes de uma verificação absoluta de proporções de poder: o mais fortalecido torna-se senhor do mais fraco, à medida que este não pode impor justamente o seu grau de autonomia, - aqui não há nenhum compadecer-se, nenhuma preservação, ainda menos um respeito a 'leis'!" (A vontade de poder, 630).

"Cada conquista do conhecimento decorre do ânimo, da dureza contra si, do anseio para consigo" Nietzsche

A força dominante é ativa, pois seu domínio ocorre em circunstâncias em que ela é capaz de agir e modificar a realidade estabelecida, expandindo, dessa forma, a sua potência. Já a força dominada é passiva ou reativa, pois, limitada pela mais forte, apenas reage ou adapta-se à dominação: "O que é 'passivo'? Ser tolhido no movimento que avança açambarcando: portanto, um agir da resistência e da reação. O que é 'ativo'? É o que açambarca poder, dirigindo-se para fora" (A vontade de poder, 657). Por isso Nietzsche faz a importante distinção entre nobres e plebeus, senhores e escravos: os nobres ou senhores são os que podem dominar os mais fracos, e os plebeus ou escravos são os explorados pelos mais fortes e, enquanto estiverem submetidos às forças mais potentes, estão impedidos de exercer um domínio sobre outras forças.

Bom e ruim

Essa distinção é fundamental para uma problematização da geração de valores. Ao mesmo tempo em que domina, o homem nobre interpreta, avalia, isto é, cria e impõe valores que derivam de uma afirmação da vida, de uma afirmação dos sentidos do corpo. Dessa maneira, ele considera "bom" todo aquele que é capaz de expandir a sua potência, metamorfoseando- se, e, ao contrário, considera "ruim" os que vivem entravados no impulso ao crescimento da potência, impedidos de se diferenciarem. Portanto, a origem do conceito "bom" está relacionada à própria ação efetuada pelo homem nobre - ele afirma a sua diferença. Isso quer dizer que "o juízo 'bom' não provém daqueles aos quais se fez o 'bem'! Foram os 'bons' mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, vulgar e plebeu. Desse phatos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade!" (Genealogia da moral, primeira dissertação, 2).

Má consciência

Os conflitos entre as forças geram as impressões (ou imagens) que são recolhidas pela nossa consciência. Para Nietzsche, a consciência é de natureza reflexiva e reativa, porque ela apenas conhece os efeitos de uma atividade inconsciente (os conflitos entre as forças) e, a partir disso, podemos organizar as funções práticas da nossa existência. Ora, a doença do homem escravo e reativo está relacionada a uma "indigestão" das impressões recebidas. Ele torna-se cada vez mais incapaz de esquecer as impressões, o que lhe causa dor (já que são constantemente re-sentidas), impedindo-o de abrir-se ao ineditismo de todo acontecer: "[...] a lembrança é uma ferida supurante. Estar doente é em si uma forma de ressentimento. [...] E nenhuma chama nos devora tão rapidamente quanto os afetos do ressentimento. [...] O ressentimento é o proibido em si para o doente - seu mal: infelizmente também sua mais natural inclinação" (Ecce Homo, Por que sou tão sábio, 6). Mas a doença do homem reativo torna-se ainda mais grave porque ele também experimenta uma crescente interiorização dos seus impulsos inconscientes, isto é, os impulsos ativos que o levariam à dominação são constantemente refreados, o que dá origem à má consciência: "Todos os instintos que não se descarregam para fora se voltam para dentro. [...] A hostilidade, a crueldade, o prazer na perseguição, no assalto, na mudança, na destruição - tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: esta é a origem da má consciência" (Genealogia da moral, segunda dissertação, 16).


Transvaloração

Por intermédio do método genealógico, Nietzsche nos mostrou que os valores superiores à vida, fundados pelo ressentimento e pela má consciência, atendem os interesses do homem reativo, que, por não afirmar a sua potência, precisa negar o mundo imanente e transformar o ideal, a imortalidade da alma, a identidade, o ser, o Criador, o bem, o justo e o verdadeiro, em valores inquestionáveis. Pela moral judaico-cristã, o rebanho impotente continua a crescer cada vez mais rápido na era dos mass media, já que estes servem para reforçar a consciência da identidade do rebanho: o pensamento de que "todos nós somos muito parecidos" oferece segurança aos fracos... Na época da democracia tudo é reproduzido em série, tudo se iguala, tudo se rebaixa, nada mais difere. E tudo o que é classificado de "diferente" passa a unir-se a um rebanho que está submetido a um modelo humano de perfeição - assim o homem reativo anseia por um fim dos conflitos entre as forças para alcançar a "felicidade da paz". Nietzsche não vê outra saída para o futuro do homem a não ser a transvaloração dos valores, o que implica uma transmutação da maneira que o homem vive - uma nova maneira de viver que se alimenta de todo acontecer para diferenciar-se, não pela representação da diferença, mas por uma potência da vida que, a cada retorno, não nos permite que sejamos o mesmo. Somente assim os valores modernos que estão impregnados pela moral judaico-cristã, como o "eu", a obediência, o progresso, a paz e tantos outros, são destruídos por valores muito mais nobres: a terra, o corpo, as sensações, o devir, o acaso, passam a ser desejados por quem aprendeu a amar a vida.

É feita uma associação, considerada indevida e ingênua pelos estudiosos da obra de Nietzsche, entre as ideias do filósofo e o nazismo. Ela decorre das críticas nietzschianas aos valores da moral cristã, de sua teoria da vontade de potência e do seu elogio ao super-homem. Muitos destes conceitos foram apropriados pelo nazismo, mas o filósofo deixou vários textos em que condena nacionalismos e totalitarismos
Culpa é o que o sujeito sente quando avalia seus atos de forma negativa. O pecado, no sentido religioso, está ligado à culpa. Ele ocorre quando a pessoa comete algo que supostamente não é bem-visto pela divindade, quando transgride um tabu ou uma norma religiosa
Amauri Ferreira, filósofo e escritor. Ministra cursos, coordena grupos de estudos e desenvolve pesquisas pela Escola Nômade de Filosofia (www.escolanomade.org) Blog: amauriferreira.blogspot.com

Fonte: Revista Ciência & Vida

domingo, junho 21, 2009

Um Crítico Implacável


Textos inéditos mostram quanto Manuel Bandeira podia ser severo – e irônico – na análise da produção literária dos anos 30, ao mesmo tempo em que apontava os novos caminhos para o modernismo

Por Almir de Freitas

Numa crônica sobre um livro do ensaísta Sérgio Milliet chamado O Sal da Heresia (1941), Manuel Bandeira esclarecia a razão do título: tratava-se do "sal" que deveria temperar a boa crítica — ainda que seu autor venha a ser considerado um "herege" por artistas descontentes com o exame rigoroso da obra de arte. "A verdade", escreve, "é que não havendo choque, aí sim, não existe necessidade nenhuma de crítica." A frase serve como uma divisa de Crônicas Inéditas II, lançamento da Cosac Naify que, previsto para o mês que vem, reúne textos do poeta pernambucano escritos para a imprensa entre 1930 e 1944. Embora levem o nome de "crônicas", tendem mais para a crítica — uma crítica sem concessões, em que a precisão se combinava, às vezes, com certa dureza.

O que não deixa de ser surpreendente. Grande homenageado pela sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece de 1º a 5 de julho, Manuel Bandeira sempre foi mais identificado com o "açúcar" de uma poesia lírica e melancólica, deixando o papel de brigador do modernismo para Oswald ou Mário de Andrade. Mas o "tísico profissional" que esperou pela morte por tuberculose ao longo de toda a vida e se definia insistentemente como um "poeta menor" estava longe de ser um comentarista pacato e humilde da vida social do Rio de Janeiro na primeira metade do século 20. Nas crônicas, sobram farpas para os hábitos e gostos da elite da capital, mas também para concertos, músicas, exposições, filmes, peças e — neste volume em especial — livros.

Nos textos da década anterior, reunidos em Crônicas Inéditas I (1920-1931), predominavam os panegíricos e as reportagens didáticas sobre a vida cultural da capital, num tom exageradamente formal e solene. Já neste volume, Bandeira parece mais à vontade. Em certo sentido, é um texto mais "modernista", de linguagem mais acessível e de estilo direto, antecipando em boa parte as análises de Apresentação da Poesia Brasileira, livro que seria publicado em 1946 (leia texto na página 34). No varejo do jornalismo, contudo, é maior a disposição de arriscar opiniões no confronto. Em 1933, por exemplo, ele publica no carioca Diário de Notícias a coluna Impressões Literárias, em que, a respeito dos livros recebidos, se queixa: "A vantagem dos críticos está em não comprar; a desvantagem, às vezes, em ler".

É assim que faz troça dos beletrismos do também pernambucano Olegário Mariano, que comparou o poeta parnasiano Osório Dutra a um personagem da ópera de Vivaldi, Bejazet, "sultão adormecido, que no dorso dos camelos lentos e dos elefantes vagarosos do seu poema Castelos de Marfim, chegou mais depressa ao Petit Trianon do que aqueles que vieram arrebatados pelas asas vertiginosas dos aeroplanos". É evidente a ligeira provocação de Mariano aos modernistas e suas máquinas, e, em parte, o tom irônico de Bandeira pode ser como uma reação em defesa do movimento lançado na Semana de Arte de Moderna de 1922, ao qual ele pertencia.

Da mesma maneira, comenta Terra Imatura, do cearense Alfredo Ladislau: "O autor gosta de latinismos campanudos como 'largífluo', 'voltívolo', que soam muito engraçados junto das vozes indígenas, como por exemplo quando fala do 'voltívolo Surubiú'. A terminologia científica eriça-se brava: 'ex-abrupta vomição do seu hidropírico Antisana', 'campos em clorido diaphonorama'...". Em outros momentos, pega mais pesado, ao chamar de "ilegível" a tradução empolada de uma edição de O Anjo Azul, de Heinrich Mann, distante da fala comum defendida pelos modernistas. Depois de transcrever um exemplo do texto, pergunta: "Será assim o português de Blumenau?", provavelmente se referindo à origem catarinense de um tradutor que ele chama apenas de "qualquer pessoa".

GRILO FALANTE DO MODERNISMO
Mas Manuel Bandeira está longe de ser mero prosélito das causas da Semana de 22. Como acontece com todo bom crítico, suas análises são tão mais precisas quanto menos regidas por manifestos programáticos. Nesses momentos, Bandeira deixa de ser o "São João Batista do Modernismo", definição de Mário de Andrade para seu papel de precursor, para se tornar uma espécie de Grilo Falante do movimento, apontando os seus descaminhos. "Os modernos andam com muito nojo do conto regional", anota ainda em 1933, elogiando a produção do gênero daquela época. Em outros textos, afirma de passagem que não é daqueles "que renegam em bloco a estética parnasiana" e alerta para o domínio do verso livre que degenera em "perigosa facilidade".

Nessa fase, há pelo menos um confronto mais sério com um modernista — e logo com Oswald de Andrade, um dos mentores do movimento, criador da ideia de antropofagia. Embora Bandeira sempre elogiasse a poesia do autor de Pau Brasil, em 5 de agosto de 1933 critica duramente o romance Serafim Ponte Grande em artigo na revista Literatura. Pontuado por referências irônicas à conversão de Oswald ao socialismo em 1931 (e a resistência do Partido Comunista a ela), o poeta-crítico qualifica o livro de "repetitivo" e aponta no autor um "individualismo que tanto se compraz — acima de tudo se compraz — na deformação diletante e feroz" (leia trechos na pág. 31).

Pode-se, claro, invocar aí — e nas desavenças posteriores entre os dois — uma querela pessoal: quatro anos antes, Mário de Andrade e Oswald haviam rompido relações, e Bandeira sempre se alinhou ao primeiro, com quem se correspondia e de quem era amigo. Se o componente pessoal é inevitável, ele não invalida a avaliação técnica e as razões estéticas da crítica. Na verdade, há uma mistura das duas coisas — a mesma que está na raiz, aliás, da oposição entre Oswald e Mário e traduz os impasses da primeira fase do modernismo. Com esse mesmo procedimento, Bandeira pode elogiar repetida e quase obsessivamente o poeta católico e editor Augusto Frederico Schmidt, que é tanto seu amigo pessoal quanto, como ele disse certa vez, o responsável por "quebrar os clichês gastos do modernismo da primeira hora", um autor que soube aproveitar "as lições do modernismo para superá-lo".

Porque o fundamental nesse momento é apontar um tipo de modernismo que, nos anos 30, já era passadista. E é essa independência em relação aos dogmas iniciais do movimento, essa abertura à prospecção do futuro, que talvez esteja por trás da avaliação mais impressionantemente acertada presente em Crônicas Inéditas II. No dia 19 de novembro em 1933, ainda na coluna Impressões Literárias, ele destaca (apesar de "certa secura", como diria mais tarde) os versos torturados, católicos à maneira simbolista, do livro de estreia de um jovem de 19 anos. O livro era O Caminho para a Distância, e o poeta se chamava Vinicius de Moraes. Àquele que seria o maior sonetista do modernismo nas décadas posteriores, Bandeira recomendava o abandono do verso livre e a adoção da métrica tão vilipendiada no início pelos modernistas. "É evidente que a sua facilidade verbal está pedindo por ora a disciplina de formas menos arbitrárias", escreveu.

Cinco anos depois, Vinicius lançava seu terceiro livro, Novos Poemas, em que abandonava aquelas metafísicas tortuosas do início. No ano seguinte, no longo texto A Produção Poética de 1938, publicado no Anuário Brasileiro de Literatura, Bandeira comemora a metrificação dos poemas do novo livro e os "pés no chão" do poeta (leia trecho na pág. 32). E, referindo-se aos sonetos de Novos Poemas, aproveitava para colocar novamente o Grilo Falante em cena: "Todos eles são bons e vêm mostrar como andavam errados certos sujeitos quando imaginavam que ser moderno era dizer mal do soneto. Quiseram matar o soneto. Não foi a primeira vez". Sim: Vinicius e Bandeira haviam se tornado amigos em 1936, três anos depois do primeiro texto. Mas como pôr a crítica sob suspeição diante de tamanho acerto? Com a bênção de Bandeira, Vinicius também aproveitava as lições do modernismo para superá-lo.

Nem sempre, é claro, Bandeira acerta, tampouco está imune a idiossincrasias como crítico. A propósito de Oscarina (1931), livro de estreia de Marques Rebelo, diz que o escritor carioca é um "romancista nato", mas não esconde uma preferência pela obra hoje quase esquecida de Ribeiro Couto, tema de vários textos desde a década anterior. Já em outra ocasião, aponta Amando Fontes, autor de Os Corumbas (1933), como o de "maior fôlego de romancista" entre uma seleção que incluía o próprio Rebelo, José Lins do Rego e Jorge Amado. Fontes, outro que era famoso na época, só escreveria mais uma obra, Rua do Siriri (1937).

Nada, contudo, que comprometesse o ofício de "salgar" a vida cultural de um país que, em meio à luta contra o arcaísmo provinciano do século 19, ainda estava longe de saber para onde deveria ir. Bandeira certamente não concordaria com essa importância atribuída à sua atividade como crítico — daí dizer, vez ou outra, que o que fazia era "conversar fiado". O que é até aceitável para quem que, tendo escrito Carnaval (1919), Libertinagem (1930) e Estrela da Manhã (1936), se definia como "simples e pobríssimo poeta lírico".

Fonte: Revista Bravo

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