sexta-feira, janeiro 14, 2011

Encontro das Almas

Vem,

Conversemos através da alma.

Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.

Sem exibir os dentes,

sorri comigo, como um botão de rosa.

Entendamo-nos pelos pensamentos,

sem língua sem lábios.

Sem abrir a boca,

contemo-nos todos os segredos do mundo,

como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos

que só são capazes de entender

se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.

Já que todos somos um,

falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: "toca",

se todas as mãos são uma?

Vem, conversemos assim.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.

Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.

Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

 
Jalal Al-Din Rumi

Lugares Proibidos



"Eu gosto do claro quando é claro que você me ama
Eu gosto do escuro no escuro com você na cama..."






terça-feira, janeiro 11, 2011

30 Seconds To Mars - Bad romance

Sob o Chuveiro Amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,

ou na banheira amar, de água vestidos,

amor escorregante, foge, prende-se,

torna a fugir, água nos olhos, bocas,

dança, navegação, mergulho, chuva,

essa espuma nos ventres, a brancura

triangular do sexo — é água, esperma,

é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Pela Luz Dos Olhos Teus

Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai, que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus

Só pra me provocar

Meu amor juro por Deus

Me sinto incendiar

Meu amor juro por Deus

Que a luz dos olhos meus

Já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus

Sem mais la ra ra ra...

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar

( La ra ri ra ra ra...)

( La ra ri ra ra ra...)

Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai, que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus

Só pra me provocar

Meu amor juro por Deus

Me sinto incendiar

Meu amor juro por Deus

Que a luz dos olhos meus

Já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus

Sem mais la ra ra ra...

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor e só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar

Composição: Tom Jobim & Miucha

Retrato Ardente

Entre os teus lábios

é que a loucura acode

desce à garganta,

invade a água.

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"





sábado, janeiro 08, 2011

Corpo

corpo

que te seja leve o peso das estrelas

e de tua boca irrompa a inocência nua

dum lírio cujo caule se estende e

ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te

deixa que o mar inunde os órgãos do corpo

espalha lume na ponta dos dedos e toca

ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio

o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama

e num soluço da respiração sei que estou vivo

sou o centro sísmico do mundo

Al Berto, in 'A Noite Progride Puxada à Sirga'

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor

no mesmo instante boca milvalente

o corpo dois em um gozo pleno

que não pertence a mim nem te pertence

um gozo de fusão difusa transfusão

o lamber o chupar o ser chupado

no mesmo espasmo

é tudo boca boca boca boca

sessenta e nove vezes boquilíngua.
 


Você meu mundo meu relógio de não marcar horas

Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você

meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas

acesas. Meu sono festival meu acordar entre girândolas. Meu banho

quente morno frio quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas

aceradas acidulas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se

desmarcam e voam. Meu suplício. Minha mansa onça pintada pulando.

Minha saliva minha língua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga

em barriga. Meu perder-me entre pêlos algas águas ardências. Meu pênis

submerso. Túnel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais.

Meu gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem

ahah minha evaporação meu suicídio gozoso glorioso.
 
Carlos Drummond de Andrade