Cupido
Claudio Lins
Eu vi quando você me viu, seus olhos pousaram nos meus num
arrepio sutil
Eu vi, pois é, eu reparei, você me tirou pra dançar sem nunca
sair do lugar
Sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se
perdeu
Eu vi quando você me viu, seus olhos buscaram nos meus o mesmo
pecado febril
Eu vi, pois é, eu reparei, você me tirou todo o ar pra que eu
pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu, foi só você e eu
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se
perdeu
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se
perdeu
Ficou só você e eu
(Quando você me viu)
Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros." [Clarice Lispector]
sábado, setembro 11, 2010
Cupido
sexta-feira, setembro 10, 2010

...“Faz amor comigo” e deixa-me correr à tua volta, deitar-me no teu colo profundo feito com as tuas lágrimas e lembranças de outros dias. “Faz amor comigo” e desperta os meus sentidos escondidos na minha alma assustada pelo brilho desta lua que é mais tua do que minha. “Faz amor comigo” e dá-me de volta a essência do que sou, perdida numa tarde de amor debaixo das luzes verdes e transparentes de uma floresta de beira de estrada, suja e perfeita de tanto pó....
Estela Ribeiro
Estela Ribeiro
quinta-feira, setembro 09, 2010
Feminina

Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo pois tinha os rastros
dos teus gestos; tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis, não os lavei,
nem os espelhos, que continuam
onde sempre estiveram: porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão, no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim, lavei e perfumei
a alma, em jasmim, que é tua, só tua,
para te esperar como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar: donde apaguei
todas as ausências que apaguei
ao teu olhar.
Soares Feitosa
quarta-feira, setembro 08, 2010

estamos quase no tempo do vinho maduro
soube-o pelo aroma que se desprende do teu sexo
intenso mel transportado pelas fulvas abelhas
oferenda de verão árduo... cal secreta
onde garajutámos corações a canivete noite dentro
embriago-me com vinho macio...sentado na desolação
duma esplanada mal iluminada debaixo dos pinheiros
o orvalho humedece o caderno em cima da mesa o lápis
a caneta um refrigerante intragável ... tua ausência
pressentida na fresca seda dos caracóis
e mais além além, um valado de soturnas açucenas
uma árvore seca pássaros e canaviais...caminho
por onde nunca me aventurei
Al Berto
LIVRO SEXTO - in Doze Moradas de Silêncio», 1978/79
Foto da net
O Essencial

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"
(Mario de Andrade)
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"
(Mario de Andrade)
segunda-feira, setembro 06, 2010
Como esquecer um grande amor / Anna Bárbara de Sá
Nestes novos tempos, em que as
famílias se diminuem e que a
saudade tornou-se regra, virou moda o medo da solidão.
De qualquer solidão.
Ninguém mais quer estar sozinho,
sempre transferindo a mágica
porção da felicidade ao outro.
Por vezes estive só, mesmo que
acompanhada.
Não foi nada além de boas tardes.
E hoje, neste instante, em que não
sinto nada passional, tenho a
ligeira impressão de que reconheço
a integridade. A minha integridade.
Esqueçam essa tal dor de amor que
lhes arrebata o peito.
Vou-lhes contar um segredo, vocês
não precisam de ninguém,
ninguém nasce ao meio.
Uma dica: parem de procurar pela
ilusória metade perdida, e se olhem
no espelho.
famílias se diminuem e que a
saudade tornou-se regra, virou moda o medo da solidão.
De qualquer solidão.
Ninguém mais quer estar sozinho,
sempre transferindo a mágica
porção da felicidade ao outro.
Por vezes estive só, mesmo que
acompanhada.
Não foi nada além de boas tardes.
E hoje, neste instante, em que não
sinto nada passional, tenho a
ligeira impressão de que reconheço
a integridade. A minha integridade.
Esqueçam essa tal dor de amor que
lhes arrebata o peito.
Vou-lhes contar um segredo, vocês
não precisam de ninguém,
ninguém nasce ao meio.
Uma dica: parem de procurar pela
ilusória metade perdida, e se olhem
no espelho.
quinta-feira, setembro 02, 2010
"...Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil"
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