domingo, agosto 08, 2010

Reflita...



O que é que tu estás a fazer em mim?
Estou a escrever-me em ti.
Para mim?
Para os que sabem ler.
Amanhã vou para dentro de ti.
Não gosto que invadas assim o meu espaço.
Não sabia que o meu amor era um astronauta.
Não sejas parvo.
Vou para dentro de ti. Sabes onde fica?
Nem quero adivinhar.

Pedro Paixão
Foto: Scott Eyechart

sexta-feira, agosto 06, 2010

Anjos Sexuais - Anais Nin




Conheci outros anjos sexuais.
É maravilhoso ver a mudança que se dá neles.
Aqueles olhos límpidos e transparentes, aqueles corpos que compõem poses tão harmoniosas, aquelas mãos delicadas...como mudam quando o desejo se apodera deles!
Os anjos sexuais!
São maravilhosos por ser uma surpresa tão grande, uma mudança tão forte.
Você por exemplo, com esse ar de quem nunca foi tocada, imagino-a a morder e a arranhar.
Tenho a certeza de que até a sua voz se altera.
Já vi mudanças assim.
Há mulheres com vozes que parecem ecos poéticos de outro mundo.
Depois mudam.
Os olhos mudam.
Acho que todas essas lendas sobre pessoas que se transformam em animais à noite - como histórias de lobisomens, por exemplo- foram inventadas por homens que viram mulheres transformarem-se à noite, deixarem de ser criaturas idealizadas e veneradas e tornarem-se animais, e pensaram que elas estavam possessas."

Destruição / Carlos Drummond de Andrade



Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.



De: "Lição de Coisas". In: Poesia completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p.475.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Pernoitas em mim


pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto

in «O Medo» - Salsugem - 1978/83:
Rumor dos Fogos, 1983

quarta-feira, agosto 04, 2010

Sonhando...


É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d’alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora… Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa

Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!…

Florbela Espanca

Ultimo Romance




Ultimo Romance
Los Hermanos

Eu encontrei quando não quis
Mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
Antes um mês e eu já não sei

E até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena

Ah vai!
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
Afim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei e quis duvidar
Tanto clichê deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
Ter fé e ver coragem no amor

E só de te ver eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar

Ah vai, me diz o que é o sossego
Que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar

domingo, agosto 01, 2010

Poema à Boca Fechada / Jose Saramago


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.